Logística hospitalar: a importância da enfermagem e das tecnologias
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[Health Talks] Entrevista com Roberto Lopes sobre a logística hospitalar e a importância da enfermagem

Por Pixeon em 23 de julho de 2019

A enfermagem tem papel fundamental no processo de logística e decisões estratégicas dos hospitais. Esses profissionais são os responsáveis por conduzir os pacientes em seus procedimentos, cumprindo os horários e garantindo que outros profissionais não serão impactados. 

Além disso, os enfermeiros conhecem e acompanham todos os processos que envolvem os pacientes e seus cuidados. Por esse motivo, a participação desses profissionais em decisões estratégicas são cada vez mais comuns. As instituições médicas estão percebendo a necessidade de contar com equipes de enfermeiros atuando em funções analíticas, por isso estão se adaptando para envolvê-los em outros contextos. 

Para falar sobre o tema, convidamos Roberto Lopes especialista em logística hospitalar. Confira!

Roberto Lopes fala sobre o papel da enfermagem e os processos de logística hospitalar

1. Qual o propósito da enfermagem dentro de uma unidade hospitalar?

“A enfermagem dentro do hospital tem um propósito específico, que é o cuidar. Mas cada vez mais a enfermagem está envolvida em um contexto maior. Hoje a gente não consegue trabalhar de forma única e exclusiva pensando apenas na enfermagem tradicional, dentro de um hospital. Os profissionais estão envolvidos em questões estratégicas, financeiras e até na logística hospitalar.”

2. Como a humanização é tratada pela equipe de enfermagem?

“A humanização sempre foi tocada como um assunto bastante informal. A gente ainda não tem um padrão para esse assunto dentro dos hospitais: o que é a humanização, como humanizar o cuidado, etc. O que nós temos são bons exemplos de empresas que investem mais nesse ponto de vista. Assim, a equipe de enfermagem tende a seguir o planejamento e o propósito das instituições onde estão instalados. 

De qualquer maneira, a humanização é inerente a categoria da enfermagem. A enfermagem surgiu do processo do cuidar, de tratar a pessoa como ser humano, de mostrar para pessoa qual é a raiz da causa para gerar o cuidado integral do paciente. Mas ainda é um contexto bastante informal porque não existe um protocolo que diz “é assim que você deve lidar com o paciente de forma humanizada”. Cada um tem o seu jeito e a gente tem N instituições com fatores diferenciados que estão agregando valor ao cuidado durante esse processo.”

3. A tecnologia pode potencializar a humanização da assistência ao paciente?

“Eu não tenho dúvidas que sim. Hoje, existem hospitais que investem pesado em tecnologia para que os pacientes possam se sentir cada vez mais em casa dentro de um hospital. Tem hospitais extremamente automatizados, assim como tem hospitais extremamente defasados em tecnologia, que não, necessariamente, deixam a desejar no ponto de vista de humanização. Por isso, eu digo que é um processo informal e que depende de instituição para instituição. 

Uma instituição de primeira linha, tem pacientes que recebem um tablet no momento da internação para se comunicar on time com todas as equipes que estão envolvidas com o processo de cuidar dele. E tem os hospitais que não tem nem a tecnologia mais básica aplicada no processo hospitalar e tem tudo muito manual. Nem por isso, o processo de humanização está defasado. A tecnologia agrega? Sem dúvidas. No cuidado, no tempo de permanência do paciente dentro dos hospitais, mas a gente ainda depende muito do envolvimento das instituições. Da diretoria, do governo, de incentivo para que isso, realmente, se torne uma realidade para todos.”

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4. Você acredita que os profissionais de enfermagem não tem sua importância reconhecida nas instituições de saúde?

Existem instituições que reconhecem e conseguem fidelizar o seu colaborador. Como que eles fazem isso?  Por meio de bons salários e investimentos em treinamento. Automaticamente a satisfação dos colaboradores aumenta. Se você quer que o seu cliente seja bem atendido, trate bem os seus funcionários. Não é só o cliente que tem que ser tratado como prioridade, os funcionários devem ser tratados como prioridade porque são eles que vão cuidar dos seus clientes. São eles que vão fazer com que o seus clientes voltem. 

Nós temos instituições que realmente atuam dessa maneira, mas nós temos a outra vertente:  pessoas que trabalham em hospitais precários, com salários defasados, onde existe uma exploração da categoria. Por não oferecer o cuidado mínimo que o paciente precisa e estar envolvido diretamente no processo de cuidar dessas pessoas, o profissional  coloca em risco a sua própria formação, seu diploma e o seu nome. 

A gente sabe que no exterior o enfermeiro tem uma autonomia muito grande, e que os enfermeiros do Brasil são muito bem vistos em outros países. Porque o enfermeiro aqui no Brasil acaba abrangendo várias atribuições que lá fora são subdivididas. Quando a pessoa chega lá fora acaba se destacando. E aqui no Brasil, já se tornou normal. Então, acredito que é uma fase um pouco obscura para a categoria, mas que está mudando.

Hoje, a enfermagem está cada vez mais forte dentro das unidades hospitalares, que entendem o papel e o potencial estratégico desses profissionais. Não apenas para o cuidado, mas para todas as outras áreas de desenvolvimento do cuidado com a saúde.

5. Os profissionais estão mais envolvidos na elaboração de planejamentos estratégicos?

“Eu não tenho dúvida. Não é a toa que a enfermagem hoje está inserida em todos os contextos de uma unidade hospitalar. Se você parar para pensar a gente tá envolvido desde auditorias de contas, parte assistencial, até o planejamento estratégico. E não digo apenas no planejamento das ações que vão ser implementadas ao cuidado, do plano terapêutico. Eu digo também nas estratégias de definição de espaços e plantas físicas. 

Na minha formação do MBA, fiz um curso de arquitetura hospitalar, onde você fica apto a assinar um projeto junto com o arquiteto. Você divide as tuas necessidades e ele implementa uma estrutura condizente com as demandas do seu serviço. Assim,  o arquiteto não precisa ser um expert dentro da área hospitalar; pois quem vai saber e entender a necessidade de fluxo do paciente, muitas vezes é o enfermeiro que está envolvido por trás desse processo. Então, você tem enfermeiro que atua hoje no centro cirúrgico, tem enfermeiro que atua numa central de regulação de doação de órgãos, e tem aquele que estará envolvido no projeto de logística hospitalar.”

6. Qual a importância da enfermagem para a elaboração de estruturas adequadas  na saúde, pensando em questões de logística hospitalar e assistência ao paciente?

“As pessoas pensam na logística hospitalar só com materiais, pensando que o material de um hospital é a seringa, o medicamento… mas quem é o nosso ator principal? É o paciente. 

Para ele conseguir evoluir dentro hospital, é necessário que haja uma movimentação entre as salas de exames, pois a tomografia não vai até o quarto do paciente: o paciente vai até a tomografia. Uma vez que o paciente precisa fazer uma tomografia, vamos pensar do ponto de vista da experiência do paciente. Supomos que um paciente se prepara e faz jejum para realizar o exame às 10h. Dá 10h30 e ninguém foi buscar o paciente. Ele está em jejum. 10h45 e ninguém foi buscar esse paciente. 10h50 apareceu alguém para buscar ele. Passou 20 minutos. Nesses 20 minutos, a tomografia ficou parada esperando o paciente. Ou seja, teve desperdício de profissional e recurso, porque a tomografia ficou parada 20 minutos esperando o paciente descer. Porque não foi feito um planejamento adequado para transportar esse paciente até a tomografia. 

Nesse caso, não atendemos a expectativa do paciente dentro do prazo estipulado e alguns pacientes ficam extremamente ansiosos, em aguardar 15 ou 20 minutos. O paciente perde a confiança na instituição, porque o médico que ia passar para ver ele, não conseguiu passar, porque o paciente atrasou para fazer o exame e com isso ficou mais um dia no hospital. Isso aumenta o risco dele contrair uma infecção hospitalar. Colocamos a vida do paciente em risco porque atrasamos um exame. Eu posso citar esse contexto em qualquer ambiente do hospital. 

7. Esse papel de atuar na logística hospitalar é mais recente ou sempre houve essa preocupação?

“O processo sempre ocorreu, mas a profissionalização deste processo está ocorrendo em um ponto bastante inicial ainda. Tem muitos hospitais que não têm uma equipe específica para fazer esse serviço dentro dos hospitais. Alguns hospitais ainda estão estruturando a logística hospitalar de uma maneira bastante amadora. Porque na verdade, não existe uma receita de bolo. Para você pensar na logística, existem aeroportos diferentes, estações de trem diferentes, assim como existem estruturas hospitalares diferentes. Você tem que pensar nos melhores caminhos, nos caminhos mais curtos e na segurança. 

Quando você estiver em determinado caminho com o paciente, quais os riscos que eu tenho de transportar esse paciente, qual equipe que eu preciso para realizar esse transporte? O destino está ciente que estou levando esse paciente? Eles estão preparados para receber esse paciente? Eu tenho o equipamento necessário? São N fatores que a mente do enfermeiro está treinada para pensar em tudo, mas não necessariamente pensam porque não é um procedimento padrão. Algumas instituições em São Paulo trabalham dessa maneira. 

Uma vez que você tem uma equipe específica para transportar esse paciente, os riscos são minimizados. Porque a equipe é especializada para realizar esse tipo de procedimento – seja qual for o grau de necessidade dos pacientes. Aqueles que permanecem nas unidades de internação, nos prontos socorros ou no centro cirúrgico têm a assistência plena, porque a equipe do setor não se distancia. Quem faz todo esse planejamento é a enfermagem, tanto na padronização dos equipamentos quanto no processo de compra. Inclusive na implementação de elevadores, pois muitas vezes, o engenheiro não tem noção da dimensão que uma maca com equipamentos e mais a equipe de profissionais pode ter.”

8. Como as novas tecnologias auxiliam na logística hospitalar e transporte interno dos pacientes?

“Uma vez que você tem aplicações, voltadas para este serviço, dentro do ambiente hospitalar, você consegue mapear os percursos, o tempo e controlar como é feito. Aí tem que levar em consideração algumas coisas: o que você precisa fazer para que o seu paciente saia do ponto A e chegue ao ponto B com segurança e na hora que você precisa? Isso se torna um problema ainda maior quando você pensa em centro cirúrgico, porque a logística de um centro cirúrgico é muito maior.

Hoje existem aplicações que agregam valor. A tecnologia veio para ficar, ganhar espaço e não para ocupar a vaga das pessoas. Porque o toque do ser humano jamais vai ser substituído, dentro do processo de cuidar. 

Na Áustria tem um ortopedista que conseguiu reduzir o tempo de sete dias de pós-operatório para dois dias e meio para o paciente sair andando, após fazer uma cirurgia de joelho. O paciente baixa uma aplicação no celular e essa aplicação marca quantos passos o paciente está dando, quantos movimentos ele está fazendo com o joelho em determinado período e isso vai diminuindo o tempo de recuperação dos pacientes.”

9. Qual a importância do desenvolvimento de novas ferramentas, aplicativos e o uso de inteligência artificial para apoiar a assistência ao paciente?

“Quando você tem ferramentas com inteligência artificial, como a da IBM, que é utilizada por médicos, para facilitar no diagnóstico e na terapêutica de algumas doenças que são raras ou incomuns em algumas regiões, você vê a importância e como foi muito bem aceita. A tecnologia é uma ferramenta importantíssima para ajudar a ser coadjuvante na precisão do tratamento. Quando você pensa que tirou uma dúvida com um processador de dados que tem informações que foram exatas para determinada patologia, você se sente mais confiança para tomar decisões.

Eu acredito que a inteligência artificial veio para apoiar a assistência, enquanto os pacientes também buscam informações no Google. O fato de as pessoas terem acesso a informação faz com que um profissional queira estar mais preparado para tirar as dúvidas do paciente e com isso passar credibilidade e confiança. Os profissionais da saúde precisam estar em constante aperfeiçoamento dos cuidados e dos novos conhecimentos.”

10. Como o uso de novas tecnologias pode potencializar e ampliar a eficiência no controle de indicadores dos processos assistenciais?

“É possível fazer de forma manual, com uma precisão bastante reduzida, mas ainda assim você consegue ter controle. Não adianta você gerar 50 indicadores e não saber onde aplicar esses resultados. Eu prefiro, ao invés de ter 50 indicadores, que eu não utilizo todos, ter 5, mas que trazem benefícios para os meus pacientes. Hoje, as pessoas pensam em indicador e começam a criar indicador de função, indicador de queda, e de várias outras questões irrelevantes. 

Você pode criar indicador do que você quiser, mas quanto isso é realmente importante para a sua instituição? As pessoas estão se poluindo com indicadores e os sistemas estão ficando cada vez mais cheios de relatórios, que muitas vezes não são utilizados. Então já começa o desperdício do recurso quando você manda um programador realizar determinado relatório do sistema, mas que para você não vai ter utilidade. Você deve pensar na otimização do recurso desde o projeto e ir agregando valor à sua operação. 

Existem sistemas que são bastante completos, que permitem extrair relatórios de absolutamente tudo, e ajudam. Uma vez que você consegue, por exemplo, usar um sistema de logística para mensurar quanto tempo você gasta para sair do centro cirúrgico do seu hospital para chegar no quarto ou no quinto andar. Demora dez minutos. Então você já consegue se programar, que em dez minutos o paciente está chegando. Esse tipo de ferramenta tem que ser de uso comum, para todas as áreas ou que envolva todas as áreas, e setores específicos de unidade.

Além disso, é fundamental ter pessoas treinadas para avaliar os resultados desses indicadores e ter um plano de ação. Realizar uma ação em cima daquilo que não está indo bem. O mundo ideal seria você ter pessoas analisando os indicadores em tempo real para que as ações sejam tomadas em tempo real, minimizando o impacto tanto na assistência, quanto na receita das instituições. 

As empresas que se preocupam em ter indicadores hospitalares de qualidade e suas metas cumpridas, devem investir em seus funcionários. Elas não criam e jogam no sistema, elas criam, treinam, avaliam o treinamento e depois implementam. Quando você tem uma equipe preparada, você implementa, mas a gente sabe que muitas empresas ainda fazem o caminho inverso. Contratam, implementam e depois treinam. “

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11. Como a enfermagem pode contribuir para redução de custos  de uma unidade de saúde? 

“Tem N gargalos que impactam diretamente no resultado financeiro, estratégico e assistencial. Financeiro porque a sua máquina de tomografia trabalhou menos, então gerou menos receita. Estratégico porque atrasou o paciente. A agenda dos exames vai atrasar. Uma agenda que era para acabar às 19h, acabou às 20h e toda uma equipe fez banco de horas ou recebeu hora extra. 

Assistencial porque por causa de uma falha logística de planejamento, que é um cuidado da assistência, ou seja, da enfermagem, o paciente permaneceu mais um dia no hospital, aumentando os riscos de contrair uma infecção ou piorar o seu quadro clínico. Sem contar que ele permaneceu mais um dia no hospital consumindo recursos que podem onerar a carta final – que é o valor da permanência no hospital, se o paciente for particular. Se for convênio, os convênios trabalham com pacotes. O pacote paga 5 dias, o paciente ficou 6 você perdeu um dia. Se for SUS você deixou de liberar um leito para que mais um paciente fosse internado e automaticamente liberasse uma abrangência maior de atendimento da fila do SUS. 

A falta de preparo e entendimento dos processos, impactam diretamente na logística e nas finanças da instituição. E quem cuida disso dentro dos hospitais? A enfermagem. A enfermagem que está com o paciente 24 horas, que é responsável por cuidar de toda essa logística. O enfermeiro está envolvido no planejamento estrutural, no planejamento assistencial, no planejamento financeiro, no planejamento estratégico das instituições. Isso é um ganho.”

Sobre Roberto Lopes

Roberto Lopes é enfermeiro especializado em logística hospitalar. Atualmente é Responsável Técnico no Cema Hospital Especializado em São Paulo. Trabalha no gerenciamento dos resultados de produção e financeiro da unidade, na supervisão e gestão de pessoas envolvidos nos processos assistências e de infraestrutura. Também realiza palestras de ensino na área de ciências da saúde sobre Transplante de Órgãos e Tecidos, Urgência e Emergência, Cardiologia e Gestão em Serviços de Saúde.

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